Saudade

  Hoje estava aqui , perdida dentro do mar  do meu silêncio, lembrando da minha amada avó.Era uma mulher baixinha,  cabelos longos,boca pequena ,de olhos muito bonitos. Parecia uma indiazinha  envelhecida, esposa de um velho cacique. Sábia que nunca vi outra velhinha daquele jeito.
Vovó tinha o dom de receber pessoas, sua casa sempre foi ponto de encontro dos filhos, netos, vizinhos e pessoas que foram para o sudeste trabalhar, mas sempre voltavam em férias.
 A serenidade da minha avó se dava mais quando nos ensinava algo que quando estava calada. Falava a verdade , mas sem gritos, sem o uso da força carrancuda no rosto. Sabia ler e escrever, e tinha um jeito de soletrar tão engraçado e difícil que mais parecia uma ciência, nunca aprendi aquele jeitinho dela de soletrar.
 Ela morava aqui, em frente à minha casa, e nunca esqueço das tardes que vovó sentava na calçada, esperando que eu chegasse do trabalho.Dez minutinhos que eu demorasse, e ela já ficava toda perturbada...Creio que eu era a sua neta preferida, mas nunca disse isto com a voz, apenas quando estava muito doentinha deixava isto transparecer, não aceitava ir para o hospital se eu não fosse com ela...
Ela aprendeu a bater a mãozinha em soco fechado com Serginho, e passaram a se comunicar assim, como dois jovens que se encontram na balada. Era moderna (risos), e por isto quando eu falava alguma coisa que ela não queria debater, respondia com "demorou",por que aprendeu isto comigo.
Tinha 102 anos quando deixou esta terra dos corpos, mas nunca perdeu a consciência, nunca desconheceu ninguém,nunca falou coisinhas de criança novamente, não usou bengala e sentava no chão com a mesma  facilidade com a qual levantava dele,tinha pernas sem dores...
Tantas coisas aprendi com ela, alguns remédios naturais, algumas palavras regionais, alguns ditados populares, colchas de patchwork. Não aprendi a fazer renda, declamar os versos de cordel que ela sabia, nem tão pouco aprendi a fazer panelas de barro. Ela fazia cada coisa...
Contava direitinho como foi  revolução de 30.Dizia que os liberais passaram aqui e que pediram para "dar de banda", e isto era uma gíria que significava ir ao banheiro. Ela ria demais ,contando sobre o medo que sentiu quando viu a casa cheia de homens armados querendo "dar de banda"
Minha vó era feliz e sabia.Com toda a simplicidade dela ,sempre teve felicidade.Creio que por não conhecer a montanha do mundo exterior, e como a pessoa tem que ser para conviver com ele.A verdade das grandes ruas, as etapas das longas utopias...Para vovó o mundo era aqui, dentro da sua casa, amando a família e recebendo pessoas.
Às vezes conversávamos sobre estas coisas dos noticiários. Eu sempre trazia uma ou outra novidade para ela...Achava engraçado quando ela dizia que os homens brigam por lixo, como pintos perdidos dentro de um grande quintal.Vovó não gostava desses moídos,não. Ela gostava de assistir futebol e ria muito quando os jogadores caiam. Eu perguntava se ela entendia bem o jogo, ela dizia que só estava vendo os tombos e os nomes esquisitos, mas que sabia quando era gol...Uma graça de pessoa , a minha Joaninha. Tirava a maior onda com a minha cara quando eu estava grávida do meu caçula. Eu tinha dúvidas quanto ao nome do menino..Uma hora queria Júlio, outra hora dizia que seria Renan, depois queria Guilherme...Vovó soltava logo a piada para colocar o nome do menino de Cafú ou Dunga, os dois jogadores no auge  dos amistosos que antecederam a copa de 1994, e ela sabia os nomes , por que não perdia os jogos...O menino nasceu e recebeu o nome de Levi, nome que vovó nunca falou, sempre o chamou de Cacá e até hoje ele é Cacá mesmo, só lá para os lados da escola tem este nome de Levi.
Não vi, aqui em Belém, vovó no seu último dia de vida. Deus achou melhor que eu estivesse longe...Mesmo assim ,quando o telefone tocou eu sabia que era esta a notícia, por que acordei e pensei ter visto vovó perto de mim, e fiquei com o coração apertado depois desta sensação. Meia hora depois o telefone tocou.,e Nilda falou que vovó ... Ela já tinha se despedido de mim, para me deixar mais forte e consciente do seu amor.
Faz tempo que ela não senta mais na calçada, mas nunca deixei de voltar do trabalho com os olhos direcionados para aquela calçada...O lugar onde sempre estava sentadinha, à tardinha, o meu amor de vovó.
Saudade, vovózinha...Muita saudade...

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About Edilene Amaral

Edilene Ziza do Amaral,carioca doada para o estado da paraíba,filha de Dona Maria Ziza e Sr. José Amaral, mãe dos príncipes Sergio e Levi.Servidora pública do municipio de Sertãozinho-PB,Técnica de Enfermagem da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, leitora sempre curiosa, automaticamente uma escritora viciada.Sindicalista, filiada ao PMDB, eleitora enjoada e exigente, sem preferência e sem doença por candidatos malas. Não comprada por corruptos Quando escrevo poesias costumo assinar como como Domitila Belém.

3 comentários:

  1. Fiquei emocionado com esse relato. Me fez lembrar Etelvina, uma figura que eu amava e que também me deixou sem que eu pudesse me despidir.

    Na sala da sua casa
    Um quadro de saõ Gregório
    E um pequeno oratório
    Onde vovó rezava
    Tudo estava ali
    Do jeito que eu deixei
    Mas nunca mais encontrei
    Aquela que eu tanto amava.

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  2. APÓS LER ESSE RELATO SOBRE MINHA AVÓ QUEREDA PENSEI EM FAZER ALGUM COMENTARIO, MAS AS PALAVRAS ME FALTARAM. SÓ POSSO DIZER AQUI QUE JAMAIS A ESQUECI E MESMO QUE ESTEJA LONGE DE MIM NÃO HÁ UM SÓ DIA QUE DELA EU NÃO LEMBRE.
    A UNICA COISA QUE PUDE FAZER PARA CONTINUAR TENDO-A PERTO DE MIM FOI FAZER UMA HOMENAGEM, DANDO A MINHA FILHA QUERIDA O NOME DE MINHA AMADA VOVÓ.

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  3. Sempre leio este texto , só para conferir que a minha saudade só aumenta...

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